Era 30 de Novembro de 2005 e eu tinha treze anos
de idade. Foram dez os anos que passaram a tentar o visto de entrada para
Portugal e a sonhar com o amor de mãe. Quando eu e o meu irmão que na altura
completou quinze anos finalmente soubemos que tínhamos conseguido, foi um
sentimento de conquista inexplicável. Meu irmão sempre muito humilde
e contra regras colocou duas pecinhas de roupa na mochila. Eu recebi ordens e
agia conforme o que ouvia: cabelo "desfrisado", calças às flores
rosas e verdes, top cor-de-rosa e umas sapatilhas.
Na mala levava muitos sonhos, entre eles, a Liberdade
e o Amor.
O Sonho Lisboeta
Uma da manhã. Chegámos a Lisboa.
No aeroporto, foi uma euforia. Abracei a minha
mãe depois de tanto tempo. Respirei de alívio e tive a certeza de que não era
momentâneo. Vi a minha irmã, depois de 10 anos e reencontrei uma outra irmã que
tinha ido estudar para Lisboa. Nos transportes, fomos conhecendo gente
nova da família: as nossas sobrinhas, cunhados, a mãe delicadamente, e um
bocadinho receosa, falava do nosso padrasto - enfim, uma mistura de
sentimentos. Mas, entre sorrisos e lágrimas, o que queríamos que o mundo
ouvisse eram os nossos sonhos.
Nós, enquanto crianças e adolescentes de classe
média/baixa de um país com poucos recursos financeiros como Cabo Verde, que nos
dá pouca margem de concretização de sonhos de forma ambiciosa, criámos uma
ideia utópica dos países desenvolvidos, onde há uma grande presença emigratória
da nossa comunidade. A visão da Lisboa Portuguesa, a Lisboa Rica, a Lisboa dos
privilegiados, reproduzida nos média. Em parte, esta ideia feita era reforçada
pelos próprios emigrantes, que ocultavam - talvez por vergonha - que não eram
representados nessas realidades, que os nossos pais, familiares, a nossa
comunidade não estava ali, que os meios de comunicação não reportavam a
realidade à qual eles pertenciam: a Lisboa Africana, a Lisboa que
também é das minorias.
A percepção de que a nossa realidade não é
comum é bastante pertubadora. O sonho rapidamente se torna num pesadelo.
Chegámos em casa. Não vi a vivenda que sempre
entrava nos meus sonhos de menina, não havia piscina e muito menos um campo de
ténis. A
minha mãe estava cansada, carregava no corpo anos de luta e sacrifício. Voz de
guerreira cruelmente silenciosa, porém incansável e o olhar... esse era de quem
tinha a plena noção que a maior batalha começava naquele exacto momento. Mais
dois adolescentes juntavam-se a aquela realidade. Naquele
exacto momento eu me apercebi que, quaisquer que fossem os nossos sonhos dariam
lugar à sobrevivência.
No dia seguinte, a minha mãe foi trabalhar tão
cedo que eu e o meu irmão não nos apercebemos. Uma das minhas irmãs foi nos buscar para
irmos à feira do relógio, ver algumas roupas de inverno. A feira do relógio é
uma feira como outra qualquer em Portugal. Tem um espaço aberto situado na
periferia, explorado por vendedores de etnia cigana, e frequentado maioritariamente
por pessoas de classes mais baixas, particularmente por emigrantes. Eu vi na feira do relógio um lugar
maravilhoso. Cada grito cigano soou-me a liberdade, presa a um contexto
político e económico restrito. Em cada rosto “preto”, com marcas de luta,
cansaço e sacrifício pude ver minha mãe.
Ela como a maior parte das mulheres negras
emigrantes, trabalhava nas limpezas. Incansavelmente, sempre com o sorriso de
resistência, dum outro lado tratava de conseguir uma escola para mim e o meu
irmão. Nós, íamos ajudá-la no trabalho porque queríamos estar sempre ao seu
lado. Saber que podia ajudar a minha mãe era para mim um momento de partilha de
amor. Podia questionar a minha nova vida e, assim, conhece-la melhor. A
mulher que eu via, abaixar se no chão frio e limpar com as mãos marcadas pelas
frieiras representa outras mulheres que embora o sistema as coloca muitas vezes
à margem da sociedade, lutam por uma vida digna de respeito.
A primeira percepção de que o sonho Lisboeta podia ser uma falácia, levou me para outros mares, num barco carregado de uma realidade penosa e num oceano agitado, cheio de medos e dúvidas...

Gostei muito... principalmete da parte da MALA.
ResponderEliminarA mala que levaste alguns anos atráz aida vai ser carregada por muitos e muitos anos "hahahhaha"... mas de certeza que esta historia irá nos ajudar a escolher o que levar na mala.