sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Da realidade de Cabo Verde ao sonho Lisboeta






Era 30 de Novembro de 2005 e eu tinha treze anos de idade. Foram dez os anos que passaram a tentar o visto de entrada para Portugal e a sonhar com o amor de mãe. Quando eu e o meu irmão que na altura completou quinze anos finalmente soubemos que tínhamos conseguido, foi um sentimento de conquista inexplicável. Meu irmão sempre muito humilde e contra regras colocou duas pecinhas de roupa na mochila. Eu recebi ordens e agia conforme o que ouvia: cabelo "desfrisado", calças às flores rosas e verdes, top cor-de-rosa e umas sapatilhas.

Na mala levava muitos sonhos, entre eles, a Liberdade e o Amor.



O Sonho Lisboeta

Uma da manhã. Chegámos a Lisboa.
No aeroporto, foi uma euforia. Abracei a minha mãe depois de tanto tempo. Respirei de alívio e tive a certeza de que não era momentâneo. Vi a minha irmã, depois de 10 anos e reencontrei uma outra irmã que tinha ido estudar para Lisboa. Nos transportes, fomos conhecendo gente nova da família: as nossas sobrinhas, cunhados, a mãe delicadamente, e um bocadinho receosa, falava do nosso padrasto - enfim, uma mistura de sentimentos. Mas, entre sorrisos e lágrimas, o que queríamos que o mundo ouvisse eram os nossos sonhos.

Nós, enquanto crianças e adolescentes de classe média/baixa de um país com poucos recursos financeiros como Cabo Verde, que nos dá pouca margem de concretização de sonhos de forma ambiciosa, criámos uma ideia utópica dos países desenvolvidos, onde há uma grande presença emigratória da nossa comunidade. A visão da Lisboa Portuguesa, a Lisboa Rica, a Lisboa dos privilegiados, reproduzida nos média. Em parte, esta ideia feita era reforçada pelos próprios emigrantes, que ocultavam - talvez por vergonha - que não eram representados nessas realidades, que os nossos pais, familiares, a nossa comunidade não estava ali, que os meios de comunicação não reportavam a realidade à qual eles pertenciam: a Lisboa Africana, a Lisboa que também é das minorias.



A percepção de que a nossa realidade não é comum é bastante pertubadora. O sonho rapidamente se torna num pesadelo.

Chegámos em casa. Não vi a vivenda que sempre entrava nos meus sonhos de menina, não havia piscina e muito menos um campo de ténis. A minha mãe estava cansada, carregava no corpo anos de luta e sacrifício. Voz de guerreira cruelmente silenciosa, porém incansável e o olhar... esse era de quem tinha a plena noção que a maior batalha começava naquele exacto momento. Mais dois adolescentes juntavam-se a aquela realidade. Naquele exacto momento eu me apercebi que, quaisquer que fossem os nossos sonhos dariam lugar à sobrevivência.

No dia seguinte, a minha mãe foi trabalhar tão cedo que eu e o meu irmão não nos apercebemos.  Uma das minhas irmãs foi nos buscar para irmos à feira do relógio, ver algumas roupas de inverno. A feira do relógio é uma feira como outra qualquer em Portugal. Tem um espaço aberto situado na periferia, explorado por vendedores de etnia cigana, e frequentado maioritariamente por pessoas de classes mais baixas, particularmente por emigrantes.  Eu vi na feira do relógio um lugar maravilhoso. Cada grito cigano soou-me a liberdade, presa a um contexto político e económico restrito. Em cada rosto “preto”, com marcas de luta, cansaço e sacrifício pude ver minha mãe.


Ela como a maior parte das mulheres negras emigrantes, trabalhava nas limpezas. Incansavelmente, sempre com o sorriso de resistência, dum outro lado tratava de conseguir uma escola para mim e o meu irmão. Nós, íamos ajudá-la no trabalho porque queríamos estar sempre ao seu lado. Saber que podia ajudar a minha mãe era para mim um momento de partilha de amor. Podia questionar a minha nova vida e, assim, conhece-la melhor. A mulher que eu via, abaixar se no chão frio e limpar com as mãos marcadas pelas frieiras representa outras mulheres que embora o sistema as coloca muitas vezes à margem da sociedade, lutam por uma vida digna de respeito.


A primeira percepção de que o sonho Lisboeta podia ser uma falácia, levou me para outros mares, num barco carregado de uma realidade penosa e num oceano agitado, cheio de medos e dúvidas...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

EU - LOLO

  Lolo Arziki in Auto Retrato
                                 






Quando eu era criança, colocava lagartas dentro de uma caixa de fósforos para que elas se transformassem em borboletas 

 Lolo é meu nome.
Nasci em Cabo Verde em 1992 no dia 5 de Fevereiro na cidade da Praia, ilha de Santiago a meio da separação dos meus pais. Desta altura só me lembro do Amor. Quando fiz 4 anos, a minha mãe emigrou para Portugal com uma das minhas irmãs e eu passei a viver ora com minha avó na ilha do Maio, ora com outros familiares na cidade da Praia. Até os meus 13 anos vivi entre essas duas realidades. 

Quando era pequena, tinha o hábito de dormir com a mão dentro da calcinha e acariciava-me. Todos os dias a meio da noite acordava com gritos de quem cuidava de mim, acabando por ficar de castigo. Logo, em vez de aprender a amar-me aprendi a esconder as minhas emoções e a reprimir a minha natureza. A Natureza feminina. 
Quando somos mulher dentro de um sistema educativo e cultural em Cabo Verde aprendemos facilmente a censurar o nosso próprio corpo e a nossa essência feminina. 
 
A pressão ou prisão onde cresci, a ausência dos meus pais na minha infância, deixava-me triste, solitária, carente, tudo o que eu tinha direito. Falava sozinha, isolava-me, não tinha muitos amigos, não gostava de brincadeiras mais agressivas. Bastava-me um irmão, uma amiga, um papel para rabiscar ou quatro paredes para me acomodar. A minha preocupação era em me proteger, talvez por sentir falta de amor maternal e saber que quando eu me protegia compensava esse amor.  
Cresci numa realidade cheia de mistérios em que cada uma das pessoas ao meus redor só se preocupavam em esconder-se dos seus próprios conflitos e frustrações. Não havia espaço para o amor. Não havia espaço para a partilha da DOR. 

   E eu continuei a crescer ...